quarta-feira, 15 de março de 2017

Plano de Aula: Como desenvolver identidade e autonomia em crianças



Objetivo(s) 

  • Interagir e relacionar-se por meio de fotos.
  • Perceber-se a si e ao outro, as igualdades e diferenças, mediante as interações estabelecidas.
  • Sentir-se valorizado e reconhecido enquanto indivíduo.
  • Enxergar-se a si próprio como parte de um grupo, de uma unidade complexa.

Ano(s): Creche,Pré-escola
Tempo estimado: Um a dois meses

Material necessário 
  • Fotos das crianças sozinhas, com seus familiares, com seu brinquedo preferido, e outras, realizando atividades que gosta sozinhas e junto de seus colegas na escola.
  • Caixinhas de sapato infantil para servir de caixinhas surpresa. Podem ser pintadas, ou forradas.
  • Papel craft para fazer cartazes de pregas.
  • Papel cartão colorido e cola para confeccionar os cartazes com janelinhas.
  • Fita adesiva.
Desenvolvimento 
1ª etapa 
Introdução 
A construção da identidade se dá por meio das interações da criança com o seu meio social. A escola de Educação Infantil é um universo social diferente do da família, favorecendo novas interações, ampliando desta maneira seus conhecimentos a respeito de si e dos outros. A auto-imagem também é construída a partir das relações estabelecidas nos grupos em que a criança convive. Um ambiente farto em interações, que acolha as particularidades de cada indivíduo, promova o reconhecimento das diversidades, aceitando-as e respeitando-as, ao mesmo tempo que contribui para a construção da unidade coletiva, favorece a estruturação da identidade, bem como de uma auto imagem positiva.


Tendo em vista estes propósitos, a utilização de fotos pode ser amplamente aproveitada pelo professor de educação infantil. Este recurso visual promove situações de interação, reconhecimento e construção da auto-imagem, favorece as trocas e a percepção do outro e, das igualdades e diferenças, e consequentemente, de si.

Esta sequência de atividades foi traçada considerando as necessidades das crianças de se reconhecerem no grupo no início do ano letivo. Desta forma, foram pensadas atividades numa sequência, que pode ser alterada conforme as necessidades e interesses de cada grupo. Depois desta sequênica inicial é interessante que algumas atividades ocorram diariamente no decorrer do ano, como a elaboração da rotina e a elaboração do quadro de presença.
Eu, eu e eu 

1. Numa roda, distribuir caixinhas supresa para as crianças com suas respectivas fotos dentro, de forma que abram e encontrem a sua imagem.
2. Distribuir as fotos e ajudar as crianças a colá-las sobre os cabides, onde ficam penduradas suas sacolas. Deixar as fotos sempre no mesmo lugar para que as crianças saibam o lugar destinado a ela guardar seus pertences. (Pode-se também fazer um mural de bolsos e, com ajuda das crianças, colar suas fotos, uma em cada bolso).
3. Fazer um cartaz de pregas representando a escola e outro representando a casa. Disponibilizar as fotos das crianças numa caixa que fique disponível a elas no início do dia. Deixe que olhem as fotos, encontrem as suas próprias e ensine-as a colocar no cartaz referente à escola.
4. Numa roda, sortear uma foto por vez para que o grupo identifique quem é quem. Incentivar as crianças a nomear e a relacionar foto e colega. Também podem cantar alguma canção simples, que diga os nomes das crianças neste momento, como "Bom dia Mariana, com vai? Bom dia Mariana, como vai? Bom dia, Mariana, bom dia Mariana, bom dia, Mariana, como vai?". Cada um leva a sua foto ao cartaz da escola.
5. Espalhar fotos pelo espaço e brincar com as crianças de encontrar. Pode cantar uma canção simples como: "Cadê o Léo, cadê o Léo, o Léo onde é que está?". Cada um leva a sua foto ao cartaz da escola.
6. Fazer um cartaz com xerox repetidos e misturados das fotos de todas as crianças. Brincar com as crianças de cada uma encontrar as suas próprias fotos entre as demais.
2ª etapa 
Eu, tu, eles 

1. Preparar um pequeno cartaz com janelinhas que abrem e fecham, uma sobre a outra, para cada criança (uma coluna, com espaço para quatro ou cinco fotos). Na janelinha de cima, colocar a foto da criança e fechar, de forma que a foto fiue escondida. Sugerir às crianças que abram as janelinhas e encontrem qual é o seu cartaz.
2. Nas caixinhas surpresas colocar as fotos das crianças com seus familiares. Distribuí-las entre as crianças aleatoriamente. Deixar que abram e sugerir que descubram de quem é a foto que encontraram. Cada um entrega a foto que encontrou para o seu dono. O dono da foto cola-a, com ajuda do professor, no seu cartaz de janelinhas.
3. Em roda, cada criança mostra a foto do seu brinquedo preferido para o grupo e, com ajuda do professor, conta o que é e como brinca com ele. Depois, colam na janelinha seguinte de seu cartaz.
4. Repetir a atividade acima quantas vezes quiser, acrescentando fotos de outras coisas significativas do universo familiar de cada criança (foto do quarto, do animal de estimação etc.)
3ª etapa 
Nós e todo mundo 

1. Com os cartazes, montar um biombo para sala, ou um grande mural, ao qual as crianças terão acesso livre para verificar as fotos de suas janelinhas e as de seus colegas.
2. Tirar fotos das crianças na escola, em suas atividades cotidianas, em pequenos ou em grandes grupos. Montar um móbile na altura das crianças para enfeitar um canto da sala.
3. Entre algumas fotos tiradas na escola, selecionar as mais ilustrativas das atividades que acontecem diariamente para confeccionar um quadro de rotina do grupo.
4. Todos os dias montar a rotina, sequenciando as atividades representadas pelas fotos, com ajuda das crianças.

Bibliografia 
As cem linguagens da criança, Carolyn Edwards, ARTMED
Aprender e ensinar na Educação Infantil, Eulália Bassedas, ARTMED
Referencial Nacional para a Educação Infantil, MEC, 1998.
Orientações Curriculares: Expectativas de Aprendizagem e Orientações Didáticas para a Educação Infantil, PMSP - SME/ DOT, 2007.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Lições importantes sobre liderança

O líder como educador

As organizações vivem a era da gestão do capital intelectual, buscando incessante atrair e preserva o conhecimento existente e gerar inovações por meio da criatividade. Assim, o processo de ensino e aprendizagem torna-se estratégico na dinâmica das organizações, cabendo ao líder o papel de facilitador da aprendizagem de indivíduos e equipes.
Segundo Paulo Freire (1997), ensinar é promover a construção do conhecimento, ensinar é pensar certo, ensinar é escutar. Vejamos como essas idéias se aplicam ao mundo das organizações.


Ensinar é promover a construção do conhecimento

Ensinar não significa transferir conhecimentos. Na verdade, ensinar é promover as condições para que esses conhecimentos sejam construídos pelo aprendiz. O liderado não aprende quando o líder lhe explica verbalmente como executar uma tarefa; o aprendizado ocorre quando ele realiza o trabalho e ambos – líder e liderado – refletem criticamente sobre essa experiência, momento em que o líder também aprende. Assim, a aprendizagem se constata quando o liderado consegue reproduzir ou recriar o conteúdo ensinado e também quando consegue atingir ou ultrapassar resultados previstos.
Por exemplo, explicar verbalmente as etapas da montagem de um computador a alguém que nunca realizou tal operação e depois pedir-lhe que repita tudo oralmente não garante que a montagem será realizada corretamente ou que o computador irá funcionar. Para tanto é imprescindível que a montagem seja realizada sob supervisão e que ao final seja feita uma avaliação crítica da cada etapa do trabalho e das dificuldades aí encontradas. Assim garante-se que certos pontos sejam esclarecidos e que as etapas se tornem significativas para quem está realizando a tarefa. Depois disso o aprendiz deve fazer o trabalho sozinho, para ganhar confiança e destreza na sua execução.
Portanto, promover a construção do conhecimento inclui propor desafios, acompanhar a realização da tarefa, avaliar criticamente o desempenho e exercitar-se para adquirir perícia.


Ensinar é pensar certo

Pra ensinar, o líder deve pensar certo. Segundo Paulo Freire, pensar certo significa submeter nossas verdades a uma avaliação crítica para torná-las passíveis de modificação. Isso permite perceber que a competência de hoje será ultrapassada pelo conhecimento a ser adquirido amanhã e conduz à busca permanente da superação do atual nível de saber.
Pensar certo é estar em permanente mudança, é conviver com os riscos e os desafios do futuro. Não é adotar o novo somente pelo fato de ser novo, nem rejeitar o velho apenas por ser velho. Trata-se de escolher as mudanças e de assumir o controle da vida. Pensar certo é ter humildade para reconhecer os erros e com eles aprender a trilhar novos caminhos.
Pensar certo é respeitar os saberes do liderado e sua consciência crítica. Portanto, ao ensinar, o líder deve partir do nível de conhecimento em que se encontra o liderado, sabendo que este tem capacidade pra criticar o conteúdo ensinado e chegar a conclusões por si mesmo. Logo, pensar certo envolve a reflexão sobre nossas práticas.
Pensar certo é respeitar a ética. Não há como desvincular o aprendizado de uma técnica das conseqüências éticas de sua prática. Por exemplo, é de se esperar que o chaveiro não utilize sua técnica de abrir cadeados para assaltar residências na calada da noite.
Pensar certo é corporificar o discurso pelo exemplo. Não tem cabimento pregar justiça quando o critério de promoção de liderados passa unicamente pela amizade e obediência cega ao líder. É sabido que o exemplo do líder é a maneira mais barata e eficaz de ensinar comportamentos.
Pensar certo é amar as diferenças. Não se aprende com quem possui os mesmos saberes, com os iguais. A possibilidade de aprendizado está nas diferenças conceituais, metodológicas, instrumentais e práticas. Portanto, deve-se reconhecer o valor das diferenças individuais existentes numa equipe. Mais que isso, deve-se incentivar a diversidade pra aumentar o potencial de aprendizado e fortalecer o processo de construção do conhecimento. Até porque ninguém aprende sozinho; aprende-se na relação com os outros.
Pensar certo é agir pra transformar o mundo e deixar-se mudar pelo mundo que se ajudou a transformar. Quando se exige novos comportamentos da equipe, é preciso ter em mente que também ela vai modificar a maneira de agir do gestor. Muitos conflitos têm como principal causa a rigidez comportamental do gestor.
É o caso, por exemplo, do gestor autoritário que censura seus subordinados pelo fato de começarem a fazer trabalhos sem sua autorização expressa, esquecendo-se de que ele próprio passou a estimular tal iniciativa após ter lido um artigo sobre equipes de alto desempenho. Além de frustrar a todos, tal atitude é contraproducente. Por isso o líder deve preparar-se pra mudar, antes de agir para mudar sua equipe.


Ensinar é escutar

Não é falando pra os outros que se aprende a escutar. Pra melhor comunicar-se, o líder deve escutar atentamente o liderado e procurar compreender o que diz. Numa cultura autoritária, escuta-se atentamente quem tem poder, mas em geral tem-se muita dificuldade pra escutar os liderados. A escuta é hierarquizada. Mas esse é um problema que tem solução: como todos escutam a voz da autoridade, resta escutar também os subordinados, bastando para tanto saber respeitá-los.
Em suma, quem tem algo a dizer deve incentivar quem escuta a participar do processo de aprendizado com seu saber único e indispensável à construção do saber coletivo, tornando-se também agente desse saber.

Livro: Aspectos Comportamentais da gestão de pessoas/Págs 50, 51, 52,53

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Tampas de potes de sorvete são a sucata perfeita para construir um livro divertido

Livro confeccionado com tampas de pote de sorvete


Materiais: 
 Tampas de pote de sorvete
 Retalhos de E.V.A.
 Cola quente
 Pistola de cola quente
 Tesoura
 Elástico colorido
 Máquina de solda ou faca quente (para poder perfurar as tampas)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A Moral na Educação Infantil

O papel de quem educa para a formação moral

Embora exista bom grau de concordância a respeito da educação moral na criança e suas conseqüências na vida adulta, observa-se que tal fato ocorre superficialmente na prática, e não com o necessário vigor a tal formação. Ou seja, vários dos que concordam sobre a importância da moral no desenvolvimento da pessoa parecem não empreender essa tarefa com a dedicação que lhe é condição pertinente. Moral, segundo Cabral e Nick (2000), “é o conjunto de normas e padrões pessoais de conduta do indivíduo que o fazem distinguir o bem e o mal; ou, mais freqüentemente, os padrões do grupo com que a pessoa se identifica”.
Torna-se, então, essencial a compreensão acerca de como a moral surge no ser humano, a fim de se estabelecer com maior alcance o papel educacional que os pais têm sobre os filhos. Tal relevância é encontrada nas descrições de Aristóteles (1985, p. 40):
“[...] a virtude moral é adquirida em resultado do hábito. Não é, portanto, nem por natureza nem contrariamente à natureza que as virtudes se geram em nós; antes, devemos dizer que a natureza nos dá a capacidade de recebê-las, e tal capacidade se aperfeiçoa com o hábito”.
Estimular a criança a exercitar cotidianamente a moral é ação educacional necessária ao estabelecimento das virtudes que se almeja para ela. Percebe-se o empenho que deve ter o responsável por essa educação, empregando energia na convivência, exemplo, consistência e certa obstinação. Tais aspectos implicam superar o desprazer presente na educação, conforme Aristóteles (1985, p. 43) ao citar Platão:
Com efeito, a excelência moral relaciona-se com prazer e sofrimento; é por causa do prazer que praticamos más ações, e é por causa do sofrimento que deixamos de praticar ações nobres. Por isso, deveríamos ser educados desde a infância de maneira a nos deleitarmos e de sofrermos com as coisas certas; assim deve ser a educação correta.
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A relevância do papel de quem educa é crucial e de tal sorte é também a chance que a criança possui num dado período de sua vida. Assim sendo, caso exista boa educação na infância, os resultados tendem a ser mais favoráveis ao desenvolvimento de virtudes.
Toda virtude é gerada e destruída pelas mesmas causas e pelos mesmos meios, do mesmo modo como acontece com toda arte: tocando lira é que se formam os bons e os maus músicos. Isso se aplica igualmente aos arquitetos e a todos os demais: construindo bem, tornam-se bons arquitetos; construindo mal, maus. Com efeito, se assim não fosse, não haveria necessidade de mestres, e todos os homens teriam nascido bons ou maus em suas profissões. E do mesmo modo sucede com as virtudes; pelos atos que praticamos em nossas relações com outras pessoas, tornamo-nos justos ou injustos; pelo que fazemos em situações perigosas e pelo hábito de sentir medo ou de sentir confiança, tornamo-nos corajosos ou covardes. [...] Em outras palavras: nossas disposições morais nascem de atividades semelhantes a elas. É por essa razão que devemos atentar para a qualidade dos atos que praticamos, pois nossas predisposições morais correspondem às diferenças entre nossas atividades. E não será desprezível a diferença se, desde a nossa infância, nos habituarmos desta ou daquela maneira. Ao contrário, terá imensa importância, ou seja, será decisiva (Aristóteles, 1985, p. 41).
O papel de quem educa para a formação moral se estabelece na convivência com quem é educado. La Taille (2002) descreve o cenário da Educação Infantil apontando as duas grandes fontes educacionais da criança — família e escola — como agentes que devem tornar claros os seus valores e suas definições sobre uma vida plena. Siqueira Neto (2005) aponta que:
o número de crianças com pouco contato nessa esfera do desenvolvimento vem aumentando, haja vista o distanciamento que ocorre entre pais e filhos. A educação perde terreno nessa relação já enfraquecida, em que a responsabilidade primária (dos pais) está sendo passada para a secundária (escola). As razões desse fenômeno vão desde o conceito errôneo que muitos pais têm a respeito do eixo liberdade–limites até o comprometimento com as suas atividades profissionais em virtude do dinheiro e do próprio desenvolvimento.
Os pais, educadores ou responsáveis têm enorme responsabilidade sobre esse tipo de formação. Não é sem razão o incontável número de crianças e adolescentes contemporâneos que se encontram distantes do desenvolvimento moral. Em sua maioria, eles não praticam atos virtuosos e se enquadram avidamente em comportamentos que oferecem prazer, relacionados ao vício. O crime é mais prazeroso do que a sua recusa em nome de qualquer virtude, sobretudo no caso em que a dimensão da corrupção não permite ser calculada em razão de seu descontrole.
A importância sobre o conhecimento da moral
Deve-se considerar, conjuntamente à prática da educação moral, o efeito que é produzido pelo conhecimento que se tem acerca de suas implicações na vida social. Trata-se de se agir, de uma maneira ou de outra, conforme aquilo que se sabe conscientemente. Para Sócrates (2004), quem sabe o que é bom acaba fazendo o bem. Ele acreditava que o conhecimento do que é certo leva ao agir correto. E só quem faz o que é certo — assim dizia Sócrates — pode se transformar num homem de verdade. A capacidade de distinguir entre o certo e o errado está na razão, e não na sociedade. Descartes (2000) corrobora ao afirmar: “O erro não é o simples defeito ou a falta de alguma perfeição que não me é devida, mas, antes, é uma privação de algum conhecimento que parece que eu deveria possuir”.
Exercitar a moral não gera apenas a ação, mas também forma a consciência a seu respeito. Quanto mais se desenvolve a prática, tanto mais se amplia o saber teórico. Dessa feita, a teoria adquirida estimula também a sua ação moral correspondente. Esse movimento dialético entre o que se compreende e o que se faz na esfera moral proporciona uma visão cada vez maior e assegura, à pessoa que vive tal processo, graus de convicção diferentes com o passar do tempo.
Um estudo realizado acerca do desenvolvimento moral demonstra a progressão pela qual passa o ser humano. O teórico Lawrence Kohlberg, citado por Bee (1997, p. 335), descreveu a moralidade em três níveis e seis estágios, como pode ser visto na tabela da página ao lado.
Piaget (1977) escreveu sobre a noção de justiça na criança, ao referir-se a uma oposição existente entre dois tipos de respeito e, conseqüentemente, entre duas morais: a de obrigação e a de cooperação. Uma trata do dever; a outra, do respeito mútuo. Quando a criança desenvolve uma formação baseada na justiça de cooperação, é possível que ela possua um senso de justiça igualitário ao longo de sua vida.
Com a educação e o tempo, o ser humano é capaz de experimentar diferentes impressões acerca de seu papel moral em relação aos outros de seu convívio, podendo, inclusive, criar um modelo particular de articular lei e prática moral, por regra e exceção. A sua consciência determina o nível moral em que se encontra, levando-o a agir em conformidade a ela.
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NÍVEL 1 MORALIDADE PRÉ-CONVENCIONAL
Estágio 1 Orientação para a obediência e a punição
A criança decide sobre o que é certo com base naquilo pelo que é punida. A obediência é valorizada por si só, mas a criança obedece porque os adultos estão em superioridade.
Estágio 2 Individualismo, propósito instrumental e troca
A criança segue regras quando se trata de algo de seu interesse imediato. O que é bom é o que traz resultados prazerosos. O certo é o justo, o que constitui uma troca legal, um acordo, um trato.
NÍVEL 2 MORALIDADE CONVENCIONAL
Estágio 3 Expectativas interpessoais mútuas, relações e conformismo interpessoal
A família ou o pequeno grupo a que pertence a criança torna-se importante. Ações morais são aquelas que atendem às expectativas alheias. “Ser bom” torna-se importante por si só, e a criança, geralmente, valoriza a confiança, a lealdade, o respeito, a gratidão e a manutenção das relações mútuas.
Estágio 4 Sistema social e consciência (lei e ordem)
Uma mudança no foco da família e de grupos próximos do jovem para a sociedade em geral. Bom é cumprir os deveres com que alguém concordou. As leis são para ser preservadas, a não ser em casos extremos. Contribuir para com a sociedade também é visto como bom.
NÍVEL 3 MORALIDADE COM PRINCÍPIOS OU PÓS-CONVENCIONAL
Estágio 5 Contrato social ou utilidade e direitos individuais
Agir de modo a alcançar “o bem maior para o maior número de pessoas”. O adolescente ou adulto está consciente da existência de visões e valores diferentes, de que os valores são relativos. As leis e as regras devem ser preservadas para que se mantenha a ordem social, mas elas podem ser modificadas. No entanto, há alguns valores básicos não-relativos, como a importância da vida e da liberdade de cada um, que devem ser preservados de qualquer maneira.
Estágio 6 Princípios éticos universais
O adulto elabora e segue princípios éticos que ele escolhe para determinar o que é certo. Pelo fato de as leis, normalmente, estarem em conformidade com tais princípios, elas devem ser obedecidas; entretanto, existindo alguma diferença entre a lei e a consciência, esta domina. Nesse estágio, os princípios éticos seguidos são parte de um sistema de valores articulado e integrado, analisado com cuidado e consistentemente seguido.
A consciência acerca da Inteligência Ética
Tendo em vista o processo de desenvolvimento moral, cabe-nos refletir exaustivamente a respeito de sua importância na Educação Infantil, como prática, forma preventiva para as relações sociais e ação formadora de virtudes. Tais percepções podem motivar ao empreendimento educacional aqui pretendido. As motivações repousam no fato de o ser humano ser influenciado externamente pelas regras sociais e internamente pelo grau de consciência conquistado. Contudo, ao analisar certas experiências de vida, perceber-se-á que não se consegue relacionar diretamente causa e efeito nas ações que empreendemos. Ou seja, nem sempre obtemos resposta virtuosa à virtude que oferecemos e nem sempre se recebe justiça por injustiça cometida. Surpreendentemente, em épocas aleatórias, recebemos tanto justiça quanto injustiça, sem enxergar as causas mais imediatas ou próximas. Ficamos à mercê da sorte, conforme justificamos.
Saber acerca da moral e de suas conseqüências não é o suficiente para se obter ainda mais consciência a seu respeito. Em nível inconsciente, o psiquismo opera alguns processos, com os quais tomamos contato aos poucos, desde as descobertas realizadas por Freud em seus estudos psicanalíticos. Tomando por base algumas de suas descrições e enveredando por novas pesquisas, é possível inferir sobre a existência de um processo psicológico denominado Sistema Psíquico Auto-regulador, ou Inteligência Ética, cuja finalidade é a de auto-regular os pensamentos e as ações para o desenvolvimento da moral e do equilibrado convívio social.
O funcionamento se dá por meio da ativação de culpa cometida; seja ela por pensamentos, sentimentos ou comportamentos, a qual cria uma demanda corretiva tendo por impulso o narcisismo equilibrado. Zelador da busca pela perfeição, que, a seu turno, aciona o masoquismo moral para efetuar na prática tal ajuste, levando a pessoa a uma determinada sentença por algum período de tempo, a exemplo das situações embaraçosas que nos colocamos sem entendê-las bem. De um lado, temos a nossa natureza para defender aquilo que, em contraposição, o masoquismo moral apresenta enquanto culpa, resultando disso, via de regra, a sentença ou punição como veredito (Siqueira Neto, 2005b).
À medida que avançamos em consciência e em ações morais — entendendo aspectos conscientes pessoais e sociais e inconscientes do processo psíquico —, maior é a compreensão e o desejo de se educar ainda mais e educar o outro. Então, a responsabilidade faz sentido e a ótica de justiça recebe polimento, permitindo enxergar um pouco melhor cada acontecimento social percebido.
[...] tal o efeito maravilhoso e irresistível da consciência. Obriga-nos a nos denunciarmos, a combatermo-nos a nós mesmos e, na ausência de outra testemunha, depõe contra nós: servindo ela própria de carrasco e fustigando-nos com látego invisível, [...] Diz Platão (428–347 a.C.) que o castigo segue de perto o pecado. Hesíodo (770–700 a.C.) assim ratifica o aforismo: nasce o castigo no momento mesmo em que nasce o pecado (Montaigne, 2004).
Todos estamos sujeitos à intervenção de terceiros; todavia, nos encaminhamos para piores ou melhores situações conforme a nossa ação moral.
Conclusão
Há muito para se fazer em prol do desenvolvimento moral, estudando-o e exercitando-o. A sua aplicação na educação das crianças possui um valor fundamental, haja vista projetar com que tipo de adulto se pretende conviver futuramente. As condições básicas para o exercício da moral estão em seu conhecimento sobre as conseqüências no relacionamento social, na aprendizagem e, especialmente, no exemplo, através dos próprios comportamentos e na consciência adquirida com a teoria e a prática moral e na percepção da auto-regulação que se processa psiquicamente. A responsabilidade de pais e educadores faz a diferença durante a formação educacional. Esse conjunto de aspectos aumenta o grau de domínio que se tem sobre as conseqüências vindouras, proporcionando, dessa forma, opção para escolher melhor o que pensar e agir, levando-se em conta a moral. A inteligência ética se desenvolve conforme se descortina o véu do desconhecimento e se enxergam as razões para viver de maneira a receber equivalentemente pelo que proporcionamos a nós e aos outros. Está na Educação Infantil a enorme oportunidade de investir qualitativamente na moral e influenciar a sociedade a mudanças que hoje são necessárias para a sobrevivência.

O eu criança na educação infantil

OBJETIVO GERAL

Possibilitar a construção da identidade da criança a partir das relações sócio-histórico-culturais, de forma autêntica, consciente e contextualizada.
JUSTIFICATIVA
Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil:
A criança, como todo ser humano, é um sujeito social e histórico e faz parte de uma organização familiar que está inscrita em uma sociedade, com uma determinada cultura, em um determinado momento histórico. É profundamente marcada pelo meio social em que se desenvolve, mas também o marca…
As crianças pensam o mundo de um jeito especial e muito próprio. É a partir das relações que estabelecem com a realidade em que vivem, com o meio familiar e com as pessoas com quem necessitam se relacionar no cotidiano que elas passam a “ler” e compreender o mundo. Cabe à Educação facilitar essa “leitura” e compreensão, possibilitando, no processo inicial de escolarização, o reconhecimento, pela criança, da sua própria história de vida. É desejável resgatar a importância das suas ações e atitudes no processo de construção da história da humanidade, estimulando sempre a sua auto-estima.
Daí o Projeto Identidade: O Eu Criança na Educação Infantil das Escolas Municipais de Itamaraju propor atividades que sejam próprias do mundo lúdico e do imaginário da criança e que colaborem para a formação de uma identidade autêntica e respaldada em valores éticos necessários ao cidadão consciente do seu papel na construção da sua história e da história do outro.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Resgatar a história de vida do aluno, tendo como fator primordial a elevação da
sua auto-estima, possibilitando que ele se identifique como sujeito da história.
Identificar e reconhecer aspectos que o caracterizam no grupo ao qual pertence (características físicas e culturais, hábitos, costumes e valores).
Fazer o aluno reconhecer a existência de diferentes modos de ser e viver, tanto na sociedade em que vive (diferenças étnicas, sociais, religiosas, de gênero) como em outras culturas (comunidades indígenas, por exemplo).
Fazer o aluno reconhecer-se como sujeito nas relações de estudo, consumo, trabalho e lazer que são estabelecidas no espaço em que vive.
Promover a compreensão dos diferentes tipos de relações, harmoniosas ou conflitantes, na família, no trabalho, na produção e nas trocas.
Fazer o aluno conhecer a própria história e a história da família, sentindo-se participante dela.
Promover a compreensão da história como um processo que se constrói a partir das relações estabelecidas pelas pessoas, no tempo e no espaço.
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PROCEDIMENTOS
Propor sistematicamente brincadeiras em grupos, integrando os alunos através de conversa em rodinhas, a fim de possibilitar o conhecimento e a aproximação das crianças. Organizar atividades individuais como criação e confecção de crachás, a partir de desenho e cartaz para a identificação do aluno.
Trabalhar a percepção do corpo a partir de observações sistemáticas, no espelho, do rosto, dos cabelos, das partes do corpo, da altura, etc.
Estabelecer observações em duplas acerca das diferenças e semelhanças entre os demais colegas, buscando construir o conceito do eu e do outro.
Fazer gráficos de altura com tiras de jornal, após as observações no espelho, procurando estabelecer as diferenças e as semelhanças de tamanho entre as crianças.
Trabalhar os sentidos: sensibilidade nas mãos (tato), visão, audição, olfato e paladar.
Fazer um desenho de corpo inteiro, incentivando a criança a reproduzir a sua auto-imagem; para isso, disponibilizar a ela diversos materiais como tinta, pincéis, papel colorido, botões, etc.
Promover momentos para que o aluno observe seu próprio espaço:
Na classe: nomear todos os objetos e móveis ali presentes, medir a sala com fitas de jornal, fazer a maquete da sala de aula com caixas de sapatos e outros materiais.
Na escola: passear pelas suas dependências; conhecer funcionários; pesquisar a história da escola; trabalhar com o nome da escola, com suas origens históricas; desenhar a planta baixa da quadra, com a ajuda das crianças; investigar o quarteirão em que se situa e o nome das ruas próximas; realizar um reconhecimento do bairro, fazendo visitas às casas comerciais, praças, casas de moradores e outros lugares.
Na rua onde mora: fazer um reconhecimento das casas vizinhas (lados esquerdo e direito, frente e fundo); visitar pontos comerciais, tais como padarias, farmácias, vendas, açougues (aproveitar e discutir as profissões e respectivas atividades econômicas desenvolvidas na rua e na família); realizar um reconhecimento das árvores frutíferas no quintal de casa.
Ao longo do desenvolvimento do projeto, é interessante que o professor proporcione momentos com jogos para que melhor se desenvolva a função simbólica das crianças. Assim, brincadeiras de casinhas, representações de papéis como o de pai, mãe, bebê, filho, tia, avô, avó, professora, padeiro, açougueiro, médico… são sempre muito bem-vindas. A organização do baú com roupas e adereços dá um toque fantástico no desenvolvimento dessa atividade.
Por outro lado, a conversa na roda pode proporcionar condições para que os alunos se sintam sujeitos do espaço, da história e das relações do grupo. Nessas conversas, é importante influir, para que cada resposta das crianças oportunize novas perguntas, estabelecendo-se assim um diálogo, aspecto importante na visão sócio-histórica. A seguir, algumas sugestões de perguntas:
Como é formada sua família? É grande ou pequena?
Seu pai trabalha? Sua mãe? Seus irmãos? Em quê?
Eles gostam do que fazem? Por quê?
Recebem muito ou pouco dinheiro? Quanto?
O que sua família faz com esse dinheiro?
O que é preciso para trabalhar?
Criança deve trabalhar? Por quê? Em quê?
Reconstrução da história do aluno, da escola e do bairro, ajudando-o a compreender que essas histórias podem ocorrer simultaneamente, com uma série de relações entre si.
Organização de mural de fotografias, após as pesquisas e excursões.
Construção da linha do tempo e do livro da vida. Obs.: solicitar a ajuda dos pais para realizar essas atividades.
Criação de situações para que os alunos discutam, comparem e troquem dados referentes às pesquisas realizadas.
Organização de encontros com a presença de membros da família, para que contem suas histórias, assim como as do bairro e da rua.
Leitura para as crianças; ler junto com elas: disponibilizar vários livros, possibilitando que as crianças escolham e comentem sobre sua leitura.
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AVALIAÇÃO
É necessário que a avaliação seja sistemática e que, em todos os momentos do projeto, os desempenhos, as dificuldades e os avanços encontrados sejam registrados, a fim de aprimorar as etapas posteriores.
Cada professor deverá criar uma ficha de avaliação com todas as atividades a serem realizadas, observando o desenvolvimento individual da criança e da turma em geral. Os resultados servirão de ajuda ao processo educativo, fornecendo ao professor elementos que permitirão identificar os conhecimentos prévios das crianças e as condições em que se promoveram avanços na construção do conhecimento.
CRONOGRAMA
Este projeto foi uma elaboração coletiva. Em qualquer caso, recomenda-se que cada unidade escolar organize as atividades a partir do seu tempo e espaço, de modo que o Projeto Identidade tenha o formato e as características próprias da clientela com a qual será desenvolvido. Cabe aqui uma consideração importante acerca do tempo na Educação Infantil: os ritmos de produção nessa etapa são muito diferenciados, e a ansiedade do professor em executar atividades propostas, em um cronograma rígido, poderá ser improdutiva.
É importante o respeito à diversidade e à individualidade das crianças, que, nessa etapa, apresentam diferenciações significativas entre o tempo biológico (a hora de descanso, lanche, etc.), o tempo psicológico (que marca a individualidade, a singularidade, a história de vida pessoal) e o tempo cronológico (aquele do relógio, do compromisso, da hora marcada).
Recomenda-se, entretanto, que, de acordo com a realidade de cada escola, esse projeto seja realizado no primeiro semestre, para que possa ser o fio condutor no desenvolvimento de outros conteúdos e temas a serem trabalhados no decorrer do ano letivo.
¹ Projeto de professores de unidades escolares municipais de Educação Infantil de Itamaraju, na Jornada Pedagógica 2001, coordenado pela equipe pedagógica da Secretaria de Educação, tendo como responsáveis Délia Ladeia (coord.), Cristina Cardoso, Helenita Rocha, Gildézia Oliveira, Eurípedes Pereira, Márcia Lacerda, Romilda dos Anjos e Rosimeire Serqueira.

Educadores: Removendo Pedras ou Semeando Flores?


Rosangela Nieto de Albuquerque
Os poemas de Cora Coralina nos convidam a uma deliciosa reflexão acerca do homem, do eu, das escolhas e dos sonhos que nos fortalecem. Essas reflexões nos conduzem a uma análise metafórica do papel do educador, pois as estrofes e os versos nos levam a pensar no processo de resiliência e superação do educador, que, em sua prática pedagógica diária, encontra “pedras no caminho” e, num movimento de construção, vai “juntando as pedras” e constrói uma escada que serve de motivação para cumprir sua função de educar…
Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Cora Coralina
imagem_1Das Pedras
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.
No poema Das Pedras, Cora Coralina enfatiza as pedras que caem sobre o sujeito — aqui representando o educador — que, em seu cotidiano, encontra desafios estabelecidos pelo contexto social atual. As “pedras” que estão presentes no dia a dia da escola — as dificuldades com a indisciplina escolar e com a violência; a falta de estrutura; os conflitos nas relações humanas; o docente que vivencia uma crise de identidade, ora instalada devido aos diversos papéis que tem que exercer — precisam ser removidas. O educador, quase que diariamente, vai removendo as “pedras do caminho” e, num movimento de transformação, vai modificando as “duras e rudes pedras”, esculpindo-as, lapidando-as e organizando-as em degraus de ascensão, de mudança, de construção de um novo paradigma, de transformação social, certamente, da criança, do sujeito, do cidadão, da sociedade. Observa-se, no entanto, que as transformações sociais exigem, dos educadores, uma nova atitude frente ao cenário atual, constituída de uma nova visão dialética, com novos procedimentos comportamentais, isto é, um processo de transformação estrutural que conduz a profundas mudanças na mentalidade, no estilo de vida, na organização social, nos sistemas de produção, nos grupos sociais, na vida cotidiana
de cada sujeito e nos valores das pessoas.
Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Nesse sentido, essa realidade provoca, nos educadores, sentimentos, desejos e sensações contraditórios. Ao mesmo tempo que proporciona a esperança, a busca pela novidade, a perspectiva desenvolvimentista, a humanização para a construção de um mundo melhor causa também insegurança e medo. É verdade que o educador vive permeado pelos seus sonhos de transformar e formar cidadãos éticos, calorosos, mais humanos e também técnicos em sua especialização…
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Nesse caminho do processo educativo, existe um educador que vivencia os percalços do coexistir. Esse homem-educador anseia ser feliz e sonha com o ideal de uma escola viva, de uma escola humana, uma escola prazerosa, com sabor de “quero voltar amanhã”. O educador sonha com escola e família juntas, em busca da educação de qualidade, em busca do saber, do conhecimento e do crescimento humano e pessoal. Assim, a escola tem um grande desafio, o de cumprir o seu papel enquanto espaço vivo, de socializar pessoas, de socializar o conhecimento, de oportunizar uma educação de qualidade para todos e de estabelecer a verdadeira inclusão (ora tão incipiente). Para isso, precisa modificar sua prática, estar aberta a mudanças, transformar-se, e não deixar que a sala de aula seja árida… de pedra.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Desse modo, nesse movimento de transformação, a escola constituirá um novo homem, que guiará o futuro da humanidade, portanto, um sujeito cidadão, crítico, reflexivo e humano. Precisamos refletir sobre que homem queremos no futuro. Para Nietzsche, há três tipos de homem: um homem segundo Rousseau, um homem segundo Goethe e um homem segundo Schopenhauer. O homem em Rousseau é rebelde, revolucionário, subversivo; já em Goethe, ele é contemplativo e desapegado; e, em Schopenhauer, é inteligente, voluntarioso, idealista, lúcido, não se deixa abater e supera barreiras. Que homem queremos para o futuro? Que homem a escola busca formar? É preciso quebrar as pedras e plantar flores…
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.
Já no poema Mascarados, de Cora Coralina, observa-se a característica semeadora do educador, que sai “a semear o dia todo” — não somente no ir e vir das escolas, mas nos planejamentos, nos projetos, na práxis pedagógica, nos objetivos propostos — e, nesse ir e vir, vai semeando tomado pelo idealismo de formar, de construir, de desenvolver o educando. Assim, vai semeando… e, de tanto semear, “com as mãos cheias de sementes”, irá plantar para colher os frutos: cidadãos conscientes, éticos, com valores morais, preparados para viver em sociedade e tecnicamente competentes para a vida profissional.
Mascarados
Saiu o semeador a semear.
Semeou o dia todo,
e a noite o apanhou ainda
com as mãos cheias de sementes.
Ele semeava tranquilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo.
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da paz e da justiça.
Cora Coralina
O educador, em sua essência, dá seguimento ao que outros educadores já semearam, pois há uma continuidade do processo cognitivo-formativo, há uma construção do conhecimento pautada na estrutura cognitiva já experienciada. Assim, os esquemas cognitivos vão se articulando numa aprendizagem “por andaime”, vinculada à experiência anterior (conhecimento prévio), ao já conhecido, que, “sobreposta” ao novo conhecimento, oportunizará uma nova aprendizagem.
Piaget, na década de 1920, chamou de estruturas mentais as condições prévias para o aprendizado e utilizou o termo para se referir aos saberes que os alunos possuem e que são essenciais para o aprendizado. E, na década de 1960, Ausubel chamou de conhecimento prévio os conteúdos fundamentais para adquirir novos conhecimentos. Para Ausubel, o que o aluno já sabe refere-se à ideia-âncora, que é a ponte para a construção de um novo conhecimento por meio da reconfiguração das estruturas mentais existentes ou da elaboração de novas estruturas. Para que ocorra a aprendizagem, são necessárias estruturas mentais que se articulem às novas complexidades e também aos conteúdos anteriores que ajudam a assimilar saberes.
Neste contexto, os estudos de Piaget sobre a aprendizagem remetem à Teoria da Equilibração das Estruturas Cognitivas. Essa teoria explica que, no movimento de aquisição de novos conhecimentos, o ser humano passa por um processo de equilibração cognitiva, o que gera a possibilidade de assimilar as informações vindas do mundo externo, acomodando-as em estruturas mentais que são forjadas justamente para refletir esse mundo. Para Piaget, é necessário que haja o processo de desequilibração inerente aos sistemas cognitivos para a construção do conhecimento. Este, através de estímulos, irá alterar as próprias estruturas cognitivas para acomodar os desequilíbrios e chegar a uma nova situação de equilíbrio.
Nos estudos da cognição, não se pode deixar de enfatizar a assimilação e acomodação. A acomodação apresenta a base da teoria da equilibração, isto é, há uma alteração nas estruturas cognitivas que proporciona a construção de novos conhecimentos e, assim, novas estruturas para assimilar conhecimentos cada vez mais complexos. A acomodação é uma necessidade cognitiva para que haja o equilíbrio. Assim, a assimilação ocorre quando o sujeito entra em contato com um objeto ou situação e se apropria dele, ou seja, quando é incorporado às estruturas cognitivas; e a acomodação se dá após a assimilação, quando ocorre uma modificação nas estruturas. Nesse processo de aprendizagem, o educador vai semeando… dando estímulos ao educando… oportunizando a aprendizagem “sem pensar na colheita”…
Ele semeava tranquilo
sem pensar na colheita
porque muito tinha colhido
do que outros semearam.
Para Cora Coralina, o semeador deve semear “com otimismo”, semear “com idealismo / as sementes vivas / da Paz e da Justiça”. Nós, educadores-professores de verdade, temos a sensação gratificante quando nossos alunos apreendem, quando têm êxito na vida, quando atingem o sucesso, pois, certamente, a semeadura frutificou, porque foi semeada com alegria, otimismo, e num contexto de cidadania, educando para a paz e a justiça social. Ser educador-professor é colaborar para a construção de seres humanos, que serão homens e mulheres que conduzirão uma nova geração. A educação escolar deve democratizar para todos com qualidade e quantidade os conhecimentos; e, nesse processo de desenvolvimento, o educador, no exercício consciente da sua práxis pedagógica, vai reorientando e aperfeiçoando o seu fazer pedagógico de acordo com o momento histórico e social.
Há tempo para ensinar com otimismo, com amor, com respeito, com humanidade. Ser humano é sentimento, emoção, razão e também respeitar as limitações. Com carinho e afeto nas relações educativas, irá germinar o respeito, que, certamente, facilitará o ensino-aprendizagem.
Jovem, seja você esse semeador
Semeia com otimismo
Semeia com idealismo
as sementes vivas
da paz e da justiça.
Cora Coralina traz uma reflexão sensacional aos educadores no poema Aninha e suas Pedras, a ideia da recriação na vida de cada um através de um processo contínuo: “Recria tua vida, sempre, sempre”. Esse movimento propõe um recomeço… Remove pedras e planta roseiras e faz doces… Recomeça.
Aninha e suas Pedras
Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Essa reflexão nos remete às transformações sociais que impõem ações capazes de contemplar novas formas de organização educacional, voltadas para outras formas de pensar, com novas mentalidades, novas posturas, favorecendo a articulação democrática da diversidade e do pluralismo, e com a necessidade de reconhecer que há valores distintos em variados grupos. Essas são ações que ficam na memória das crianças, dos jovens, das gerações…
Faz de tua vida mesquinha um poema.
E viverás no coração dos jovens e
na memória das gerações que hão de vir.

Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
Cora Coralina
Nesse processo de valorização das diferenças, a escola deve ser concebida como um local de processos formativos que priorizam o pluralismo e a coletividade, um espaço de transmissão da cultura, de socialização, de afirmação da identidade cultural e pessoal. A escola tem o desafio, como espaço social, de implantar uma práxis pedagógica embasada na reflexão do sujeito, na conscientização e valorização do saber, na experiência trazida pelo aluno, de oferecer condições de ele expressar seus sentimentos, seus valores e pensamentos. Educar, hoje, requer uma mudança no contexto educacional, no clima escolar, na oferta curricular, nas técnicas e nos métodos de ensino, na avaliação do ensino-aprendizagem e nas expectativas dos professores. A escola deve ser voltada para a liberdade, compreendida como uma formação embasada no respeito à dignidade humana, na tolerância e no fortalecimento da cultura individual.
O educando tem sede de saber e fome de degustar uma escola saborosa, prazerosa e atraente. O educador que educa com sabor proporciona uma fonte para os sedentos de conhecimento e traz para a sala de aula a oportunidade de degustar o agradável paladar do conhecer, do fazer pedagógico, que desenvolve a capacidade de pensar criativamente, o que, sem dúvida, é ofertar água a quem tem sede, remover as pedras e plantar flores.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede.

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